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segunda-feira, junho 26, 2006

Patriotismo Requer Independência Nacional


Na Europa existe uma vaga de fundo contra a constituição europeia, mas ao que parece não só não demove os do politicamente correcto, como lhes mostra cada vez mais a verdadeira face, os seus obsessivos intentos. E que ao teimarem avançar longe demais, não admitem outro resultado que não um utópico projecto hegemónico e aglutinador que em qualquer decisão de fundo submeteria todos à simples lógica das maiorias, tal como funciona num país, e, como se à partida houvesse o pressuposto que a Europa inteira tivesse forçosamente que assumir as mesmas políticas. Um país por mais pequeno que seja tem o direito a pôr-se de fora quando não concorda com certos pontos de vista, de política externa por exemplo, não devendo ser obrigado a cumprir o que as maiorias dos outros decidem, determinam ou querem impor. Isso é na prática independência nacional, essa que nos dá a capacidade de sermos senhores do nosso próprio destino, para o bem e para o mal, de fazermos alianças conjunturais e ou de agirmos de acordo com a nossa história e tradição.
Devo dizer que cria irritação denotar-se, em muitos dos comentadores e políticos do sistema, uma tendência manipuladora, ao não aceitarem que as regras democráticas funcionem imparcialmente em cada país. Talvez isso sirva certos grupos e interesses numa única e redutora perspectiva, de uma traição inequívoca ao que é nacional e não dependente. Sabe-se que a pequenez é fundamento geral e aparente para se renegarem os Estados-Nação, a pretexto, entre outras coisas, da globalização, dos valores materiais, do medo, da ambição desmedida ou da maldade dos homens. Quando o que realmente estará em causa não é o pertencermos à Europa, até mesmo a uma moeda única, mas sim o modelo de organização política de uma Europa federalista que nos querem impor a todo o custo e sem nexo, de cima para baixo.

É inadmissível e de uma total desonestidade política pretenderem agora os políticos do sistema um adiamento dos referendos, e neste caso em Portugal, pelo medo que novas rejeições vençam em vários países, pelo efeito devastador que se prevê em cadeia. Mas onde estará a imparcialidade de quem deve promover, autorizar e implementar estes referendos? Para estes somente um resultado é admissível, aceite e por isso válido? Afinal onde está a verdadeira legitimidade democrática dos que são elegidos? É evidente que existe hoje e cada vez mais um divórcio imenso entre os que eleitos e os cidadãos que os elegem. O caso da Alemanha é exemplo, no qual a Assembleia dos deputados votou em grande maioria esta constituição, ao contrário do que indica a sensibilidade actual do povo alemão e outros, situação totalmente controversa e só vem provar que este processo nada tem de isento e democrático.

Considero ainda de uma total incoerência e irresponsabilidade, por um lado apelar-se ao patriotismo de longa data, e, por outro, defender-se acerrimamente a constituição europeia, a qual, a médio e a longo prazo, conduziria à diluição das pátrias, as quais perderiam a sua independência, o que transformaria, no futuro, o sentimento pátrio em mero bairrismo de Estados ou regiões, talvez com as bandeiras de hoje, para que o óbvio seja disfarçado. Julgo isto incompreensível, pois patriotismo é indissociável de verdadeira soberania, do povo que a quer e da consequente independência que é irreversível em qualquer Estado-Nação. Dirão alguns que desde o momento que aderimos à U.E perdemos grande parte da nossa soberania, mas o que é um facto é que com uma constituição europeia enterraríamos de vez a que ainda nos resta, o que seria humilhante e desrespeitador da nossa História, da nossa identidade como Povo.

Se os que rejeitam a constituição europeia dividem-se nas suas motivações e fundamentos mais díspares, sendo até opositores em muita coisa, como as questões éticas do direito à vida e outras de sentido igualmente moral, os que a apoiam, no meu ponto de vista, terão uma visão megalómana, utópica, materialista e redutora do modo como encaram a Europa, que situando-se fora das realidades, a desejam artificialmente unida por interesses, de ajudas, financiamentos e outros. Dizem e dão a entender que,“se não podes vencê-los, junta-te a eles”, que “soberanias já não existem, só partilhadas”, ou “resignemo-nos dada a ausência de alternativas”, o que levaria na maior das certezas a um super estado europeu inconsistente e sem alma, com a aparente capa de liberal e democrata, com um governo, um presidente, um ministro dos negócios estrangeiros e até um hino... É essa a construção europeia artificiosa de que tanto se fala e nos querem impingir? E de que estarão a pensar quando dizem que é imparável este processo de integração?

Não é segredo para ninguém que a economia da China, a actual maior ameaça à economia global e europeia, um dos pretextos para esta união artificial, praticamente pouco ou nada aguenta com custos decentes de mão-de-obra, derivando a concorrência desleal de um total desrespeito pelos direitos humanos, o que por conveniência ou medo é demasiado tolerado. Mas tudo isto é falácia, pois concorrência desejável será entre países livres, e não com regimes híbridos, totalitários e ambíguos.
Ao contrário do que dizem certos políticos defensores do “sim”, que alegam que o “não” é uma mistura de várias tendências, motivações ou razões, sem uma ideia definida e estruturante, será mais do que evidente que as causas dos que se sentem prejudicados nos seus empregos, no seu modo de viver, na sua segurança, têm intimamente ligação com as questões base de soberania que permitam reforçar a autoridade dos Estados, pela sobreposição das leis nacionais nos sectores vitais da vida pública nacional. Sabe-se que ao não serem defendidas, diminuem o orgulho nacional, fazendo obrigar ao caos ou à submissão, viciando o jogo sob o qual se deverão reger as relações entre poder económico e político com as sociedades dos vários países. Estes que constituem a Europa de hoje, devendo esta fazer história para que no futuro seja plural, verdadeiramente livre, transparente e democrática, respeitadora das individualidades, não só dos cidadãos, mas também dos diversos e tão diferentes países.
Luís Manuel Teixeira Gomes Santos
Retirado de Democracia Liberal

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