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quinta-feira, setembro 28, 2006

Novos termos gramaticais geram controvérsia entre educadores


"Uniformizar, autonomizar, valorizar". Estes são os três verbos mais citados por quem defende as virtudes da nova Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS). Já os seus críticos recorrem ao antigo substantivo "hecatombe" (actual nome próprio comum) para definir o impacto que poderá ter no desempenho dos alunos de Português.

A TLEBS, aprovada pela portaria 1488/2004, encontra-se actualmente em fase experimental de implementação, tendo em vista a sua generalização em 2009. No último ano lectivo foi testada por 90 professores em 17 escolas do País. Este ano, se as previsões forem cumpridas, será generalizada aos 3.º, 5.º e 7.º anos do Ensino Básico, seguindo-se em 2007 os 4.º, 6.º e 9.º anos e, em 2008, no 8.º ano e no Secundário. Ainda assim, poucos serão os cidadãos, nomeadamente os pais, a conhecerem o seu real alcance.

Em causa está uma revisão completa dos termos gramaticais utilizados em Portugal. A TLEBS vem substituir uma nomenclatura que vigora desde 1967: eliminando termos ultrapassados, acrescentando muitos outros adaptados ao mundo actual (inclui 687 designações, 210 das quais novas) e reorganizando os grupos em que estes se inserem.

"Uma mudança necessária há 30 anos", diz Paulo Feytor-Pinto, da Associação de Professores de Português (APP), parceira do Ministério da Educação na reforma. "Nas últimas décadas, os estudos linguísticos produziram grandes transformações, no mundo e em Portugal, que não foram incorporadas. A antiga terminologia dividia-se na gramática da palavra: a morfologia, e na gramática da frase: a sintaxe. Hoje há, por exemplo, uma coisa muito importante que é a gramática do texto, a forma como este é construído."

O problema, para os críticos da reforma, poderão ser os efeitos colaterais de uma nomenclatura tão ampla e, em muitos caso, complexa: "Sou favorável ao uso da terminologia no ensino universitário e na formação de professores", diz Álvaro Gomes, pedagogo com mais de 30 anos de experiência. "Não no ensino básico. Seria muito grave. Temo que resulte daqui uma geração de alunos autistas, ou quase."

"Nenhum pediatra diz a uma criança com dores de barriga: você tem uma crise gástrica moxirreica. isto é uma questão de senso-comum", considera. "No entanto, crianças de seis podem ser confrontadas com questões como: 'Explicite o valor anafórico do conector'. Que benefícios é que isso vai trazer?"

Gramática no 1.º ciclo

Luís Capucha, director-geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular (DGIDC), admite que a TLEBS vai implicar que o 1.º ciclo passe a "incluir uma componente de ensino das regras da língua". Porém, garante: "Não há nenhum risco de que uma criança de seis anos seja confrontada com um palavrão desse tipo. O que nós pretendemos é que o professor entenda o termo, de forma a poder transmitir o conhecimento da língua aos seus alunos", explica.

A fase de implementação inclui várias conferências entre profissionais (a mais recente realizou-se ontem, na Gulbenkian) e dezenas de acções de formação - já realizadas ou em curso por todo o País . Além disso, no site da DGIDC foi criado um fórum para troca de dúvidas. A meta deste trabalho, diz Luís Capucha, é garantir "professores e um sistema educativo bem preparados", mas também obter "contributos para melhorar a própria TLEB.

Pedro Sousa Tavares

Retirado do Diário de Notícias, 28 de Setembro de 2006.

A "novilíngua" profetizada por George Orwell?

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