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quarta-feira, agosto 23, 2006

O perigo do falso paralelo


Em fins de 375, o imperador Valente tomou a decisão de ceder à súplica dos visigodos, pressionados pelos hunos, permitindo que passassem a fronteira do Danúbio e se fixassem na Trácia. Este facto é normalmente referido como o marco inicial da queda do Império Romano. Hoje, perante o islão, o Ocidente sente-se em situação paralela. O acolhimento concedido aos imigrantes, em busca de uma vida melhor, é aproveitado pelos terroristas para ameaçar a vida e prosperidade dos anfitriões. O resultado, como então, é o mundo sentir-se envolvido numa espiral de violência, nascida do medo e ódio gerados pelo encontro de culturas. Este paralelo, que, explícita ou implicitamente, é glosado em milhares de análises, tem alguns laivos de plausibilidade, mas é essencialmente falso. Por exemplo, o quadro geo-político actual parece centrado na mesma questão da Antiguidade: saber se os muçulmanos, novos godos, se integrarão na civilização que os aceitou ou se, mantendo a hostilidade, acelerarão por dentro a sua decadência e destruição. Curiosamente, a lição da História mostra a inanidade da alternativa, porque na Antiguidade ambas as coisas se verificaram.

Pode dizer-se que as duas dimensões do problema que nos preocupa, embora sérias e difíceis, são muito diferentes da Europa no último quartel do século IV. O primeiro elemento da presente situação é, simplesmente, o confronto do islão com o desenvolvimento. A cultura muçulmana, porém, nada tem de comum com o barbarismo dos godos. Ela é uma das mais ricas, sofisticadas e poderosas civilizações da humanidade. Com grande dinamismo e flexibilidade, foi-se tornando a segunda mais globalizada de sempre. Actualmente sofre debaixo da dolorosa transformação gerada pela modernidade.

Trata-se do mesmo processo que o cristianismo, a mais global de todas, e o judaísmo, a mais resistente, sofreram há 200 anos. Hoje sabemos que ambas sobreviveram, mas o processo foi longo e muito difícil. Aliás, elas foram das poucas que resistiram, pois pelo caminho muitas outras culturas e elementos culturais soçobraram, do animismo ao xamanismo, passando pela aristocracia, monarquia absoluta, e também as lavadeiras, carruagens, chafarizes, perucas empoadas. Hoje é a vez de o islamismo, mas também o budismo e o hinduísmo, passarem pela mesma prova.

A adaptação da sociedade muçulmana à vida moderna tem-se revelado dolorosa e violenta, quer interna quer externamente. Esse processo está na base de boa parte dos conflitos do Médio Oriente, como da raiva dos terroristas. As comunidades residentes nos países ricos constituem uma importante vanguarda na busca dos caminhos que permitirão ao islão sobreviver a esta evolução.

A segunda dimensão da situação actual nasce do confronto do Ocidente com a globalização. Cavalgando a onda do progresso, a civilização europeia convenceu-se do seu domínio planetário. O sucesso foi evidente, mas a hegemonia trouxe-lhe alguns dos traços decadentes dos antigos romanos. A complacência, arrogância e tibieza são crescentemente evidentes na sua atitude diplomática. Pretenso arauto mundial da paz e democracia, tem repetidamene violado esses valores e é cada vez mais considerado como opressivo ou ignorante. Por outro lado, a sua degradação de costumes, que considera desinibida e libertária, é desprezada pelas outras culturas como vil e debochada.

Estes dois problemas são graves. Mas nem os árabes são bárbaros nem os ocidentais estão apodrecidos. Apesar das semelhanças, não está em causa a queda do império ocidental sob a pressão das hordas muçulmanas. Pelo contrário, um dos maiores perigos da situação actual reside precisamente no referido paralelo. As visões que crescentemente apregoam um "choque de culturas" fomentam aquilo que temem. O mal está em tratar a religião islâmica como inimiga da civilização e os muçulmanos como selvagens que só se integrarão se mudarem. O mal está em considerar o Ocidente como o "grande satã", que tem de ser derrubado e extirpado.

O quadro actual é muito diferente da antiga queda dos impérios. Mas se não for controlado, facilmente gerará horríveis morticínios. A única solução é fazer uma distinção fundamental. Os crimes são cometidos por criminosos, enquanto os povos, todos os povos e culturas, são compostos na sua grande maioria por pessoas pacíficas em busca de uma vida melhor. Afinal, os visigodos que o imperador Valente deixou entrar no império são os nossos antepassados.

João César das Neves

Retirado do Diário de Notícias, 21 de Agosto de 2006. João César das Neves está na Alameda Digital.

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