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domingo, agosto 20, 2006

Um segredo chamado Artur Gonçalves


É o homem de quem se fala Artur Gonçalves, fadista dos anos 70. Há poucas semanas, as suas músicas foram gravadas de vinil velho para formato mp3, chegaram à internet e causaram furor junto de uma juventude que desconhecia a sua existência. O radialista Nuno Markl não demorou a passar as músicas no seu programa da Antena 3. Os novos fãs aumentaram. E, nos dias que correm, são cada vez mais aqueles que perguntam: afinal, o que é feito do artista? O JN encontrou a resposta.

Artur Gonçalves chega à entrevista com a mão a afagar a barriga "Acabei de comer um empadão de torresmos", diz. No bolso das calças esconde um cantil de aço inoxidável para bebidas destiladas. O homem é uma personagem fascinante: aos 71 anos, fala pelos cotovelos, esbraceja, é muito expressivo. E conta-nos a sua história: "Fui um pé descalço na Mouraria e a minha mãe vivia numa barraca em Campolide".

Cantor antifascista

Em 1973, gravou o seu primeiro fado "Não passes mais com ele na Musgueira"debruça-se sobre o caso de um ciumento que difama a ex-mulher por esta ter passado com outro à frente de sua casa. É ficção, uma tragicomédia. "Isso ia dando um caso em tribunal", lembra o artista. Tudo porque nessa mesma altura, houve um caso real de um casal da Musgueira que se separou. E a letra, que numa perspectiva marialva enxovalha a mulher, foi acusada de inspiração realista: "Meteu-se-lhe na cabeça que o homem tinha vindo falar comigo e que eu estava a cantar sobre ela", conta o fadista. Mas depois tudo acalmou: "Eu nunca cheguei a conhecer essa marreca".

Uma das facetas de Artur Gonçalves reside na postura política, intervencionista e antifascista das suas letras, a maior parte escritas e gravadas no segundo semestre de 74, depois da Revolução de Abril. Entre as gravações de "Ser fascista" ou "Vamos dar caça à PIDE", o cantor de intervenção garante "Andava sempre nas manifestações para correr com aqueles filhos da...". Não obstante, acusa: "O PCP pôs-me logo de lado". E em que esquerda se situa Artur Gonçalves? "Na ala esquerda do PS", assume sem problemas aquele que já conheceu o amargo sabor da censura - antes e depois do 25 de Abril.

"Eu era o 'raistaparta' e escangalhava alguns fados", sustenta, orgulhoso. As suas letras, em forma de quadras, quintilhas ou sextilhas, são hilariantes.

Artur Gonçalves explica o que o inspirava "Escrevia quanto tinha uma ideia na pinha, quando ouvia um anedota ou quando lia uma notícia no jornal", recorda. E cita um exemplo de uma música "que não me deixaram gravar". A história conta-se assim: "Foi uma bronca há muitos anos: havia um conjunto de putas que andavam a atacar no Bairro Alto. Os quartos não tinham chave e então qualquer pessoa podia lá entrar - elas penduravam o casaco dos clientes na porta e faziam com que os homens se deitassem de costas para a entrada. Os gajos que tinham a carteira no bolso do casaco eram roubados por quem lá entrava. No total roubaram mais de 30 mil contos!", grita, impressionado. Vai daí, escreveu a seguinte quadra: "No Bairro Alto, ali na rua da Barroca / uma quadrilha foi caçada certa vez/ aproveitavam-se dos despejos da piloca/ para despejarem a carteira do freguês". O artista barafusta: "Falei em pilocas e não me deixaram gravar!". E não sustem a revolta: "Embirraram comigo! Ainda ontem vi na televisão alguém dizer "filhos da p...". Não entende por que o impediram de gravar: "É que anda na boca de toda a gente..." (a palavra, entenda-se).

Na despedida, o fadista fez questão de nos oferecer a cassete de "Deixem a minha gaita em paz". A canção é um clássico instantâneo.

Daqui.

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