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sábado, agosto 19, 2006

Prometeu esmagado

Fui sabendo de Marcello, até 1973, por telefonemas de circunstância (quase sempre para me cumprimentar pelo Quadro de Honra permanente no liceu) e por conversas com os meus pais.

Falara um dia preocupado, perante a possibilidade de multa por uma rádio sem licença, discutia as horas correntes da transição e reunia-se na Choupana, em São João do Estoril, com o grupo de colaboradores que considerava mais amigos, e mais leais. Nunca vislumbrei estes encontros, nem sequer para comer as batatas fritas em baldinhos, mas o que se passava lá dentro, diz-se, mudava o país.

Estivemos juntos poucas vezes, mas notei-lhe sempre um ar pesado e soturno, sobretudo a partir de 1973. O odor a fim de regime era claríssimo. Em Fevereiro de 1974, achou-se obrigado a escrever, e ler, um texto chamado, precisamente, Vencer a Hora Sombria, espécie de último apelo de um treinador que sabe já não ter equipa ou capacidade para chegar ao fim, mas que também não pode – nem que seja pela honra – admitir o caos pela porta principal.

No fim de 1973, num mês que não posso precisar, o malogrado João Paulo Tomás, neto do Presidente da República, benfiquista ferrenho e amigo chegado, chegou-me ao recreio com cara de caso. Disse-me, resumidamente, que o avô lhe falara do facto de a guerrilha africana estar a adquirir armas mais modernas que as portuguesas, e da “conspiração de Spínola e de Costa Gomes” contra o regime.

Marcello não aparecia “implicado” nesta descrição, feita muito antes do 25 de Abril, que deveria ser voz comum em Belém, para poder ser do conhecimento de um garoto de 15 anos.

Por essas alturas, soube da genuína surpresa de Marcello face ao massacre de Miriyamu, em Moçambique, que se dera em Dezembro de 1972, e onde um jovem graduado enlouquecido terá começado um excesso sanguinolento, que acabou com 60 mortos, quase todos civis (o sobrevivente, um miúdo que penso se chamava Ernesto, foi acolhido pela família Jardim). Marcello recebera informações vagas, primeiro, do general Kaúlza de Arriaga e do brigadeiro Armindo Videira, comandante de Tete, que não teriam sabido logo da extensão da atrocidade. Mas face à repetição de inquéritos não responsabilizadores dos comandantes responsáveis, Marcello decidiu pedir uma nova averiguação, penso que no Verão de 1973, e acabou por demitir o general Videira. Lembro-me de ter dito, em minha casa, que o fazia por uma questão de “princípio”, referindo que Portugal tina de conduzir uma guerra “limpa”, e guiada pelo Direito Internacional.

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