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sábado, agosto 19, 2006

Jantar em família

Essa inconfidência passou-se num jantar de família, no fim de 1973, em casa dos meus pais (nessa altura, já em Miraflores, no prédio onde depois moraram Costa Brás e Oliveira e Costa, do PSD). A refeição melhorada era servida pelo Chefe Silva, depois conhecido nas revistas de culinária e na RTP, que na altura era o chef do Instituto de Altos Estudos Militares, em Pedrouços.

Lembro-me do interesse de Marcello, quando entrou no meu quarto, pela versão francesa do Dicionário de Filosofia, de André Lalande (na PUF), pela versão espanhola da Paideia, do Werner Jaeger, pelo 1984, do Orwell, e pelo Admirável Mundo Novo, do Huxley. Tinha pedido os dois primeiros livros ao meu pai, para um “ponto” (como se chamavam, na altura, os testes) e os outros dois tinham-me sido oferecidos pelo meu tio Fernando.

“Já vi que o Nuno tem leituras muito avançadas, para 14 anos”, dizia ao meu pai, que revelava ao padrinho o meu gosto pela Filosofia e pela História. “É um caminho essencial, meu filho”, afirmou Marcello. “Então e o Clemente Júnior?”, continuou, querendo saber coisas sobre o meu irmão mais novo, na altura fascinado por experiências químicas e engenhocas várias.

“O Clemente é um bombista!”, exclamou o meu pai com ternura, lembrando as cópias perfeitas que o meu irmão fazia de engenhos explosivos que via nas séries da televisão. Silêncio gélido. Era o tempo dos atentados contra os símbolos do poder.

“Bombista a favor do governo, claro...!”, rematou o meu pai, numa saída genialmente bem-humorada.

No resto da noite (e depois de um incidente em que Marcello bateu violentamente com a cabeça num candeeiro de tecto, ainda por cima pontiagudo), lembro-me de se falar no Congresso dos Combatentes no Ultramar, e mostrou as fracturas reais nas forças armadas. Falou-se também nos famosos decretos 353 e 409, sobre carreiras de milicianos e quadro permanente, remunerações e estatuto.

Vi Marcello Caetano genuinamente destruído. “Mas querem que eu ponha a polícia a prender a tropa?”, perguntava, impaciente.

Lembro-me de ter dito ainda alguma coisa sobre o uso generalizado de droga nas unidades de Moçambique, dos “generais sem prestígio entre os soldados e oficiais mais novos”.

Anos mais tarde, nas cartas, disse-me que seria importante publicar todas as actas do Conselho Superior de Defesa Nacional, para se compreender as posições dos chefes militares face à guerra. Sempre lhe notei uma profunda distância “civilista” em relação à hierarquia militar, que respeitava institucionalmente mas compreendia pouco, e cujo funcionamento lhe parecia anacrónico e ineficaz.

Lembro-me que teve ainda tempo para falar da “subversão galopante, à vista de todos”. Dissera que passara pelas Galerias Itaú, junto à Estados Unidos da América, e de só ter visto livros comunistas. Junto ao elevador de Santa Justa, por outro lado, vislumbrou uma banca “nacionalista”, com panfletos ofensivos e amesquinhantes. Quase todos comparavam a sua “hesitação” à “determinação” de Salazar. Explicou-me, em aparte, repetido numa carta de 1979, que uma coisa era governar “em longo período de estabilidade e outra entre fumos de revolução”. Lembro-me de lhe ter perguntado, também por escrito, se não eram também os dirigentes e os regimes que faziam a sua própria “estabilidade” ou “revolução”.

Já não respondeu. Morria no Rio de Janeiro em Outubro de 1980, depois de um agudo ataque de asma.

Nuno Rogeiro

Ritirado da Sábado, 17 de Agosto de 2006.

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