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sábado, agosto 19, 2006

O fim de Salazar

Quando Salazar teve o seu acidente cardiovascular, a seguir à queda na Fortaleza de Verão (cuja renda insistia em pagar, quando lá passava férias), lembro-me de que estava na Pousada de S. Lourenço, na serra da Estrela, com os meus pais e o meu irmão, maravilhados com os ensopados de borrego, os jogos de damas e a maravilha granítica do local.

Penso que, na altura, também lá ficavam os nossos inseparáveis tios Fernando (irmão do meu pai) e Maria Elisa (irmã da minha mãe), que casaram no mesmo dia, à mesma hora e no mesmo sítio, em Seixo da Beira. O meu pai, depois de passar pela magistratura do Ministério Público e pela Caixa de Previdência (onde ajudou a montar um dos primeiros sistemas nacionais de segurança social), dedicou toda a vida à Emissora Nacional, hoje RDP (dela foi director administrativo e presidente), só saindo para director-geral da Informação, e, à beira do 25 de Abril, o último ministro da Saúde do “consulado Marcellista”.

No meio das brincadeiras com os meus primos, entre o futebol e as explorações da serra, vimos o ar carregado de todos. Apesar de só vir a extinguir-se anos depois, todos os mais velhos percebiam que o ciclo (humano e político) de Salazar tinha terminado.

Dias passados, na clínica onde jazia o estadista moribundo, vi uma cena revoltante, que não esqueço: uma altiva senhora “da alta”, vestida a rigor e pérola, recebia o beija-mão de gente humilde, que se ajoelhava. Duzentas famílias? Idade Média?

Jurei que, quando crescesse, queria o oposto daquilo.

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