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domingo, julho 30, 2006

Os fins e os meios


A pergunta é clássica, na sua urgência. Pode um “fim justo”, como seja a legítima defesa, permitir o uso de “meios injustos”, como armas de destruição indiscriminada, o ataque a civis e neutrais, a destruição da rede eléctrica, o alvejar de ambulâncias?

Uma visão ‘utilitarista’, desculpando o “mal necessário”, na actual “ofensiva defensiva” israelita, precisa de ser repelida liminarmente.

Telavive (ou Jerusalém, se preferirmos) começou esta operação de forma adequada, tentando executar aquilo que a UNIFIL não pôde, não quis ou não soube fazer: proteger as fronteiras internacionais de incursões armadas. Mas o prolongamento das operações, e o ónus excessivo sobre o poder aéreo, desperta legítimas dúvidas sobre o cumprimento escrupuloso do ‘direito da guerra’ (para já não falar na eficácia táctica), pelas forças de defesa judaicas.

Quanto ao Hezbollah, não se desviem as atenções.

O que se discute não é a implantação social, política e espiritual do partido, a sua obra meritória de assistência, ou o seu passado empenhamento na reedificação do Líbano (Jihad al Bina). O que está em causa é a actuação do seu braço armado (a al Mukawama al Islamia), no ataque não provocado à Galileia. Só isso.

GALILEIA, 1982

Em vez do Hezbollah, estavam no Líbano 18 mil homens da OLP, incluindo uma «brigada internacionalista’ de europeus, africanos, latino-americanos, árabes. Israel queixava- -se de meses de ataques intensos, que levavam as populações a norte de Haifa a fugir, ou a dormir em abrigos.

A ‘operação Paz na Galileia’ propunha-se três coisas: anular a “agressão”, criar uma “zona de segurança” no Sul do Líbano e “desmantelar militarmente” a organização de Arafat. Alguns olhavam outros fins, como o controlo do Rio Litani, de forma a compensar a desastrosa salinidade do mar da Galileia.

Depois de combates limitados mas intensos (29 MIG destruídos num só dia), Israel e Síria decidiram não mais se confrontar directamente. A ofensiva terrestre custou aos israelitas mais de 600 baixas.

Foi em 1982, mas parece hoje. Só que o Hezbollah, com um terço dos combatentes, é uma noz muito mais dura do que a OLP.

SUEZ, 1956

A ‘operação Mosqueteiro’, há exactamente meio século, mostrou que o conceito de ‘Ocidente’ era um acidente.

A ofensiva franco-britânica sobre o regime egípcio, preparada por um ataque israelita, tinha causas complexas. Gamaal Nasser, o ‘Mussolini árabe’ (nas palavras de Anthony Eden), nacionalizara o Canal do Suez, prejudicando capitalistas de Londres e Paris. O Cairo apoiava a guerrilha antifrancesa na Argélia, e os fedayeen que infiltravam a jovem Israel.

Militarmente vitoriosos, os poderes europeus viram-se renegados por uma aliança de interesses entre Moscovo e Washington, e perderam, em grande escala, no tabuleiro da geopolítica. De Gaulle disse solenemente que nunca mais confiaria nos “aliados”.

O depois é hoje.

Nuno Rogeiro

Retirado do Correio da Manhã, 30 de Julho de 2006

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