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sexta-feira, julho 07, 2006

A segunda derrota de Le Pen


Com o aproximar das eleições presidenciais em França, o líder da extrema-direita repete e reproduz os tiques e os comportamentos que lhe deram um inesperado protagonismo nas eleições de 2000.
Defensor das concepções políticas e sociais mais conservadoras e cruzando, quase sempre, as causas e as vias de um fascismo delirante e perigoso, Le Pen aposta no conflito social como arma para atingir estes objectivos.
Não olha a meios nem respeita quaisquer limites.
Existe, infelizmente, actualmente em França (e noutros países da Europa) um terreno fértil para o relativo sucesso destas ideias, o que se justifica pela grave crise social e de identidade europeia que este país atravessa.
O terrorismo urbano, a agitação social, os movimentos juvenis e a contestação generalizada recentes são, como é reconhecido por quase todos, sintomas claros deste mal-estar.
Neste contexto, as actuais políticas de imigração e as dificuldades delas decorrentes, para a integração dos imigrantes constituem um bom palco para o patrocínio das ideologias do terror.
O líder da extrema-direita Le Pen identificou esta janela de oportunidade e não se tem cansado de a explorar até à exaustão.
Tal como o fizera em 1998, também agora a selecção francesa, que disputa o campeonato mundial de futebol, foi objecto das suas negativas apreciações.
Para Le Pen os franceses não se identificam com a sua selecção porque ela é composta por uma maioria de jogadores que, embora nascidos em território francês, pertencem a uma segunda geração de imigrantes.
A resposta tem sido dada no campo desportivo através da sensacional campanha que a equipa francesa, supostamente recheada de "estrangeiros", vem fazendo na competição.
Tudo aponta, portanto, para que Le Pen venha a somar nesta área uma nova e contundente derrota política.
A questão da imigração é, contudo, uma questão que ultrapassa o folclore ou os interesses dos líderes da extrema-direita.
No actual estado de desenvolvimento económico, a Europa precisa de uma política integrada de imigração, sendo indispensável que essa política constitua um factor de inclusão dos "novos europeus" nas sociedades de acolhimento e anule qualquer hipótese de marginalização social propiciadora de conflitos e perturbações.
Este é, no entanto, um domínio da exclusiva competência do Conselho Europeu, ou seja, dos Estados-membros, embora seja possível, ao abrigo das disposições do Tratado de Nice e através da utilização da chamada cláusula "passerelle", passar a matéria para o processo de co-decisão, conferindo poderes acrescidos à Comissão e, sobretudo, ao Parlamento Europeu.
O que está em causa é, verdadeiramente, a definição de uma política integral de imigração, para o conjunto da União, que permita, por um lado, garantir mercados estáveis no seu território e contribua, por outro lado, para amortecer as fortes pressões de imigração clandestina que se verificam nas fronteiras exteriores da União.
Neste, como em outros domínios, só é preciso que exista vontade política dos líderes europeus para atacarem, de raiz, o problema.
A delicadeza desta matéria e a sua particular sensibilidade junto dos cidadãos europeus, para lá das questões da segurança interna da União que lhe estão associadas, torna esta questão muito premente.
Em clima de dificuldade, os cidadãos têm a tendência para sobrevalorizarem os aspectos negativos e não evidenciam, por isso, uma grande preocupação com os movimentos correctores de médio e longo prazo.
Por isso é também necessário que se conheça o que é que o Conselho Europeu pode fazer, desde já, para levar os cidadãos a participarem activamente nas decisões que permitam converter a actual pressão imigratória ilegal em movimentos de pessoas legais e enquadrados e, sobretudo, em aceitarem a necessidade de imigrantes.
É no actual vazio legislativo e na contradição das opções políticas que podem crescer os movimentos, a que líderes como Le Pen dão corpo e visibilidade.

Manuel dos Santos

Retirado do Semanário, 07 de Julho de 2006

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