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terça-feira, agosto 01, 2006

O "outro" D. Sebastião


Antonio Villacorta Baños-García, para nossa vergonha, publicou recentemente um livro sobre a vida de D. Sebastião, o eterno "desejado" do imaginário nacional (D. Sebastião - Rei de Portugal, editora A Esfera dos Livros), e o rei que vemos sair desta obra, que tem a grande virtude de citar documentos e escritos da época, tanto portugueses como castelhanos, é tudo menos o que nos ensinaram na escola, e profundamente destrutivo da imagem que ao longo de séculos foi sendo construída em redor deste soberano.

A história é conhecida, mas pouco divulgada, e foi essa lacuna, alimentada por um povo que sempre esperou um milagre para sair do declínio, e das brumas em que se encontrava, e encontra, que levou à construção de um mito que não existe, e de um personagem que foi tudo menos um grande rei, nos poucos anos em que presidiu aos destinos de Portugal.

Filho de D. João, príncipe do Brasil, e de D. Joana da Áustria, irmã de Filipe II de Espanha, D. Sebastião tornou-se rei aos três anos de idade, embora a regente tenha sido a avó, até à sua puberdade.

A mãe, pouco querida dos portugueses, partiu para Castela, onde governou o reino sob as ordens do seu irmão. Sebastião foi entregue aos jesuítas e à avó, e daí resulta uma personalidade estranha, tão estranha que o leva a morrer em Alcácer Quibir, numa batalha sem organização nem estratégia.

Ao assumir os destinos de Portugal, aos 14 anos, D. Sebastião revela uma personalidade mística, dominada pela convicção de que era um enviado de Deus para combater os infiéis e propagar a fé, a qualquer preço.

Com uma saúde precária, e uma confusão de ideias, mal organizadas, que se revelam em todos os seus escritos - alguns totalmente incompreensíveis e baralhados -, D. Sebastião começa a sofrer, a partir dos 11 anos, de uma disfunção sexual, pouco explicada e de difícil compreensão, que o levava a desmaios contínuos, febres e prostrações. Tal era o problema, que as sucessivas sugestões de casamento, com inúmeras princesas, foram sendo anuladas ou dificultadas pelo próprio. A história era conhecida na pequena corte portuguesa, e objecto de permanente fluxo de informação para Filipe II, tanto através de embaixadores como de informadores.

Obstinado, fervoroso e profundamente alheado da realidade, D. Sebastião não admitia reparos, ou correcções, ou outras interpretações, que não as suas, e isso levou-o a ter uma corte de bajuladores, incompetentes, que alinharam, sem uma palavra de discordância, na aventura em Marrocos, que teve um final que conhecemos.

Acreditando ser um novo cruzado, um capitão às ordens de Deus e da Igreja, monta a invasão de Marrocos com o objectivo de se tornar numa lenda vitoriosa e desviar a atenção das cortes portuguesa e espanhola dos seus males. Todos, incluindo Felipe II, tentaram demovê-lo - por estranho que pareça, há inúmeros documentos que abalam a tese de que Castela apoiou a ideia para anexar Portugal -, mas o rei de Portugal nada ouvia ou atendia. Os mais importantes nobres portugueses tentaram demovê-lo, por nada verem nessa expedição, mas o rei, endividando o País - o défice, afinal, já vem desde D. Sebastião -, organizou um exército de mercenários e camponeses, pouco ou nada treinados, cheios de temores e maus pressentimentos, que pelas melhores estimativas era pouco mais de metade das forças do sultão Al--Malik, que tentou diversas vezes, por escrito, e através de mensageiros, evitar a batalha e a destruição infantil de milhares de homens.

Sem nenhuma preparação militar superior, mas apenas confiante nas suas capacidades físicas, e não dando ouvidos aos generais do seu Exército, D. Sebastião, já em Arzila, toma a decisão catastrófica de enfrentar os homens de Malik em Alcácer Quibir, a meio caminho de Larache. Foi o início da derrota que levou a vida de 14 mil homens, em ambos os campos.

Quando o exército de D. Sebastião - e não tanto português, porque as nacionalidades eram muitas, incluindo um renegado marroquino, sultão deposto, que também morreu quando fugia da batalha - chega a Alcácer Quibir, estava esgotado, esfomeado, desorganizado e sem fé. E o mais espantoso, curiosamente, é que o próprio sultão Malik estava gravemente doente, sem capacidade de comando, mas com um exército duas vezes superior ao nosso, e com uma experiência invulgar. Malik morre às primeiras horas da batalha, de causa desconhecida, e ao final da tarde cai D. Sebastião, "mais soldado do que capitão", com o seu exército dizimado ou em fuga, e ainda tentando enfrentar, em desespero, com a sua guarda e corte, milhares de mouros exímios e bem treinados. O resto é a nossa história.

Vale a pena conhecer este D. Sebastião, rei de Portugal, mesmo que escrito por um espanhol e com todas as prudências. A nossa "loucura" colectiva vem de longe...

Luís Delgado

Retirado do Diário de Notícias, 31 de Julho de 2006.

1 Comments:

At 9:15 da tarde, Blogger Pedro Ferreira, Visconde de Cunhaú said...

Não desmontem esse mito nacional!

 

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