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sexta-feira, setembro 22, 2006

O Papa e o profeta


Acusá-lo [Bento XVI] de começar uma cruzada é ler ao contrário o que foi dito.

Em discurso erudito (que poucos leram), na Aula Magna da sua antiga Universidade de Regensburg, Bento XVI tocou um tema querido: pode a religião ser contrária à razão?

Em várias passagens, cita controvérsias mortais dentro do pensamento ocidental, do Cristianismo, e da própria Igreja Católica. Explica, por exemplo, que a tentativa de retirar à última a herança helenística esteve na origem da consideração da fé como um mecanismo separado da realidade. Lembra, porém, que quando se diz, na (primeira) versão grega dos Evangelhos, “Ao Princípio era o Verbo” (Logos), isso significa “no começo era a razão e a palavra”.

O logos, a palavra da razão, que consubstancia a verdade, apela ao espírito. Já a guerra se joga para o corpo. Nesse sentido, a guerra é ‘irracional’, ao mesmo tempo que imoral. Citando Manuel II Paleólogo, em 1391, usa uma passagem traduzida por Theodore Khoury, explicando que, para o espírito helenístico do imperador bizantino, cercado em Constantinopla, parece “errado, injusto e desumano” que o Islão defenda a guerra, contra a razão.

Devastadora, a citação usa-se como mero exemplo, numa discussão teológica que, em vários pontos, é também demolidora para as teorias cristãs da ‘guerra justa’.

Joseph Ratzinger não é nem uma estrela de cinema, nem um presidente, nem um director de relações públicas. O seu tempo é próprio, e isso pode trazer problemas aos que esperam espectáculo. Mas acusá-lo de começar uma cruzada é ler ao contrário o que foi dito.

Erros e (o)missões

Ahmed Rashid, autor de uma boa história dos Taliban, explica que, durante três anos, as zonas tribais do Waziristão foram deixadas ao deus-dará, depois da fuga de bin Laden da sua fortaleza em Tora Bora, no fim de 2001. Foi precisamente aí, sem lei nem ordem, e sobretudo sem exército paquistanês, que a coligação entre a al-Qaeda e os ‘estudantes de teologia’ do mullah Mohamad Omar, se reconstruiu.

Fez novos adeptos, recriou os circuitos de recrutamento, fornecimento de armas e financiamento, reabriu as zonas de passagem para o Sul e Oriente do Afeganistão e, em suma, preparou a reconquista do poder. Ao mesmo tempo que isto se passava, a atenção estratégica da NATO e dos EUA voltava-se para o Iraque. Como disseram os críticos, na altura, esta combinação explosiva de abandono de prioridades, trabalho deixado a meio, adiamento de soluções e desguarnecimento territorial iria ter consequências.

As tropas da Aliança, hoje envolvidas numa guerra sem quartel (que não podem perder, mas que dificilmente conseguem ganhar), vivem essas consequências.

Dia D

No Ocidente do Sudão, há três anos, dois movimentos armados (o MJI e o ELS) começaram uma ‘guerra de libertação’. Diziam representar os interesses das etnias e tribos oprimidas da região, contra o governo de Cartum e as suas milícias. Entretanto, a guerrilha dividiu-se, ocorreram centenas de milhares de mortos e o Mundo despertou para mais uma atrocidade.

O ‘Dia do Darfur’ é hoje. Servirá para alguma coisa?

Nuno Rogeiro

Retirado do Correio da Manhã, 17 de Setembro de 2006.

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