http://img233.imageshack.us/img233/4972/novadireita15tl.jpg

sábado, julho 22, 2006

O Ocidente, a família e o Papa


A correcção política e o discurso dominante constituem os instrumentos de verbalização do relativismo moral. De facto, o relativismo moral precisava de um "nim", ou seja, um nem sim nem não, onde coubesse sem estorvo isto e o seu contrário. Se a correcção política administrada em doses maciças está já a saturar o cidadão comum e a envergonhar os supostos intelectuais, o relativismo moral progride no seu intuito desconstrutivista operando, só por si, transformações que não sendo nem pensadas nem digeridas pela maioria das pessoas, têm contudo consequências na vida de todos nós.

A família foi um dos alvos mais importantes desta nova "cultura". A verbalização do primeiro ataque limitou-se à substituição do singular pelo plural: famílias. Ficou estabelecido que era politicamente incorrecto o singular, pois tal seria a negação ou a recusa do reconhecimento de outras realidades igualmente dignas de atenção: a família nuclear, a família alargada, a família monoparental, as uniões de facto, etc...

As novas categorias apareciam como conquistas dos tempos modernos e a família, a tal, passou a ser referida como a "tradicional", uma espécie residual em vias de extinção. E como este era o discurso dominante, quase ninguém exprimiu a dúvida pertinente quanto aos benefícios destas conquistas. As famílias monoparentais, sabemos, resultam na sua esmagadora maioria do facto de os homens abandonarem as mulheres e os filhos, ficando estas entregues a si próprias e à dura missão de prover às necessidades da família agora reduzida a um único adulto, a mãe. Esta monoparentalidade é, aliás, um dos factores que mais contribui para a crescente feminização da pobreza. Por outro lado, a distinção conceptual entre família nuclear e alargada resulta de meras circunstâncias: a exiguidade da habitação, a especulação imobiliária e uma lei do arrendamento totalmente desadequada, o êxodo forçado dos mais novos para as periferias, a morte dos bairros, tudo forçando o afastamento entre avós, filhos e netos, reduzindo a capacidade de entreajuda, a complementaridade nos afectos e nas tarefas, a convivência plurigeracional e aumentando a solidão e o sentimento de desamparo dos mais velhos. Em Espanha, onde tudo é avaliado, os números indicam que poucos recorreram à união de facto, após a entrada em vigor da nova lei, sendo possível concluir que não seriam muito numerosas as pendências nesta matéria... Em breve teremos os números dos casamentos celebrados entre homossexuais.

Quando o Papa Bento XVI se reúne em Valência com milhares de famílias vindas de todo o mundo e portadoras de um testemunho de vida, estamos sem dúvida perante um acto religioso de confirmação de valores morais cristãos e, nessa medida, aparentemente só relevantes para os que professam esta fé. Mas não me parece que assim seja. Porque o Papa veio, também, relembrar a uma sociedade confusa e inquieta o valor da família como o pilar que sustenta o indivíduo e a sociedade, da família como o âmbito privilegiado onde cada pessoa aprende a dar e a receber amor, da família como instituição intermédia entre o indivíduo e a sociedade insubstituível nessa mediação porque assente numa profunda relação interpessoal, da família como uma escola de humanização do homem no seu processo de crescimento, da importância dos avós na memória dos afectos, nas raízes e no testemunho de vida. Nada muito diferente do que ficou dito no rescaldo do Ano Internacional da Família promovido pelas Nações Unidas, quando os países contabilizaram os enormes prejuízos decorrentes da fragilização do tecido familiar e da transferência para o Estado de funções desde sempre cometidas à família. Prejuízos visíveis na incapacidade de resposta dos sistemas sociais, no aumento da delinquência, das dependências, do abandono, da solidão, das novas doenças.

É, afinal, o reconhecimento do interesse público da família, o mesmo reconhecimento que levou o legislador a dar-lhe particular tratamento no Código Civil. Porque só assim se entende a redacção do artigo 1577 que inclui na noção de casamento, como um dos requisitos, o intuito de constituir família, mediante uma plena comunhão de vida. Na verdade, se não fosse reconhecido este interesse público, estaríamos apenas no domínio da moral e não faria sentido que o legislador viesse dispor sobre os termos em que esta "plena comunhão de vida" se processa.

Sempre se poderá dizer que basta mudar a norma para varrer a consagração daquilo que é sobretudo antropológico. Mas sabemos que se umas dezenas de deputados podem mudar a lei, não poderão certamente mudar a natureza das coisas. E não vale a pena confundir a necessidade, que todos reconhecemos, de tratar juridicamente novas realidades sociais, com a subversão absoluta de instituições indispensáveis à saúde e ao desenvolvimento da pessoa e das comunidades. Sobre esta como sobre tantas outras questões relevantes, as sociedades ocidentais vivem tempos de confusão. Pensar assim é malvisto pelos "donos" do pensamento dominante que actuam como censores ditatoriais, banindo os desconformes e silenciando os críticos. O resultado é a impossibilidade prática de reflectir nas consequências das escolhas. Que para serem livres precisam de ser reflectidas.

Bento XVI reflectiu muitos anos como teólogo e cardeal Ratzinger sobre tudo isto. E sobre a grande crise que a Europa atravessa, de dúvida profunda sobre si mesma, dos valores que sedimentaram a sua cultura, do seu lugar no mundo, da sua matriz, afundando-se numa decadência lenta e dolorosa. Para os católicos a escolha do tema - a família - do momento e do local, tem particular e inequívoco significado no cumprimento da missão pastoral e evangelizadora do Papa. Mas, para todos, as suas palavras libertas podem constituir matéria de reflexão. O que torna esta viagem ainda mais oportuna.

Maria José Nogueira Pinto

Retirado do Diário de Notícias, 21 de Julho de 2006.

0 Comments:

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home