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terça-feira, julho 25, 2006

Sem espaço para a paz

Um velho carismático, molhado até aos tornozelos, murmurava qualquer coisa, à vista da outra margem: envolta em névoa, estava a Palestina, e as muralhas de Jericó. A água ultra-salgada do Mar Morto impedia-nos de mergulhar, e qualquer ferida no corpo ardia como uma tortura.

Pelas seis da tarde, um grupo de soldados jordanos veio avisar-nos. Era preciso sair depressa da água. Um alerta dos serviços secretos em Amã, transmitido aos vizinhos israelitas (que nos seguiam com os binóculos), indicava a possibilidade de infiltrações na margem ocidental do Jordão, ou até ao porto de Eilat, para atentados de “solidariedade” com o Hezbollah.

Horas antes, do alto do Monte Nebo (onde Moisés terá morrido), víamos a distância deste enclave cristão (franciscano) da tolerante Jordânia, em relação aos pontos de conflito: estávamos a poucos quilómetros de quase tudo. Jerusalém, Ramallah, Nablus, os Montes Golã. Um dos problemas do Médio Oriente é esse: a demasiada proximidade de tribos, clãs, países em guerra. Não há cinturões de segurança, terra de ninguém, bolsas de aproximação, zonas verdadeiramente desmilitarizadas. Em suma, não há espaço para a paz.

O Hezbollah preparou-se bem para esta guerra “assimétrica”. A sua liderança político-militar (Nasrallah, Mugnyeh, Harab, Akil, mais dez) está espalhada e, aparentemente, segura, algures entre Hermel, no Norte, o devastado quarteirão de Haret Hreik, em Beirute, o vale de Bekaa, às portas da Síria, e um alegado ‘bunker’ construído pela RDA, há algumas décadas. As suas unidades de foguetões, amplamente municiadas, continuam a mover-se junto à fronteira, entre Baqura, Rmaich, Bent Jmail.

No porto da capital, o míssil C802 ‘Bicho de Seda’, que atingiu a plataforma de helicópteros da corveta israelita Aki-Hanit, foi lançado com precisão, numa salva de dois, com cumplicidade evidente da ‘marinha’ libanesa. Quanto ao míssil Zelzal interceptado pela força aérea judaica (e confundido com a queda de um ‘caça’), era uma óbvia escalada. Embora o “Partido de Deus” possa só ter 11 operacionais, o alcance de 170 quilómetros coloca Telavive em xeque.

Muitos perguntam por que é que Israel não se limitou, desde o início, a ocupar uma zona de segurança de uns 30 a 40 quilómetros, a Sul do Líbano, sobretudo tendo em conta que a conhece bem, desde que a invadiu. Impedia-se assim o disparo útil de uns 80 a 90% dos ‘rockets’ usados, protegia-se a população da Galileia, desmantelava-se apenas a parte militar da agressão. Mas os estrategos e analistas do Monte Miron sabem que o ‘cancro’ está demasiado espalhado.

Um ataque por terra tem custos superiores ao que se pensa, num país com menos de 6 milhões de pessoas, e meio milhão de reservistas, desabituado (ou cansado) de sacrifícios.

Nuno Rogeiro

Retirado do Correio da Manhã, 23 de Julho de 2006.

3 Comments:

At 7:19 da tarde, Blogger Pedro Ferreira, Visconde de Cunhaú said...

As análises de Nuno Rogeiro são absolutamente obrigatórias!

 
At 3:32 da manhã, Blogger elephantcom said...

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At 11:35 da manhã, Blogger bestusedcarrs said...

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